Várias frentes da Ética Cristã.

“Ciência que trata das origens, princípios e práticas do que é certo e do que é errado, à luz das Santas Escrituras, em adição à luz da razão da natureza” (L.S. Keyser). 

INTRODUÇÃO:
I. “Um estudo sistemático do modo de viver exemplificado e ensinado por Jesus, aplicado aos múltiplos problemas e decisões da existência humana” (Georgia Harkness).
“”Explanação sistemática do exemplo e ensino morais de Jesus aplicados à vida total do indivíduo na sociedade, e realizados com o auxílio do Espírito Santo” (H.H. Barnette).
“”A ciência da conduta humana, determinada pela conduta divina” (Emil Brunner).
II. Por que “estudar” Ética Cristã? Porque todos nós, como cristãos, somos indivíduos dentro de uma sociedade majoritariamente não cristã. Os valores cristãos que seguimos devem encontrar correspondência na sociedade em que vivemos. Como se dá isso é a tarefa da Ética Cristã propor. Na verdade poderíamos dizer que não se “estuda” ética, mas se concebe e se vive um tipo de ética.
III. Todos nós enfrentamos a questão: “isso é certo ou errado?” Para tratar desta questão, T. B. Maston nos sugere um teste inicial com três ênfases:
a. O Teste do Segredo. Em relação a um pensamento ou fato, você: gostaria que algumas pessoas não soubessem? Ficaria envergonhado se sua mãe, filho, esposo(a), igreja soubessem? Se você tem dúvidas ou certeza quanto ao fato de não querer que alguém saiba, não seria melhor você considerar a conveniência da sua participação naquele fato segredo seu? Não pode haver nenhuma explicação convincente para se esconder o certo, ou se temer revelá-lo (ler Jo 3:20,21). O teste do segredo é, pois, este: há segredos embaraçosos em sua vida? Haveria muitos problemas em ver tal segredo projetado numa tela para todos os seus colegas de trabalho, escola ou irmãos da igreja verem? Naturalmente o teste do segredo não é sinônimo de falta de bom senso. Há situações que são de foro íntimo, honestas, mas sem qualquer necessidade de exposição.
b. O Teste da Universalidade. Pense em um ato hipotético e responda: seria bom se todas as outras pessoas agissem igual a você? Aquilo seria bom para o seu pai, mãe, esposo, pastor? Se você visse alguém praticando aquele ato, você sentiria menos respeito por aquela pessoa? Fazendo uma aplicação geral, poder-se-ia ainda indagar: que espécie de igreja, família, comunidade ou mundo nós teríamos se a norma geral fosse aquela sua? Pergunte-se: “que espécie de igreja seria a minha se todos os membros tivessem os meus padrões?”
c. O Teste da Oração. O cristão deve indagar-se sobre os seus atos: “posso pedir para Deus andar comigo nisto?” “Posso pedir que ele me abençoe enquanto faço isso?” O teste da oração revela a capacidade que temos de falar com Deus sobre determinados assuntos.
Assim, a Ética Cristã procura determinar os princípios para o crente em Jesus Cristo que devem motivar a sua postura e comportamentos em nível individual e em nível coletivo. A base, para tanto, é a Bíblia. Entretanto, enquanto que as Escrituras mostram os princípios de Deus para o homem a partir de uma cultura – em particular e essencialmente, a cultura hebraica – o desenvolvimento do cristianismo encontrou outras culturas, outros valores, outras perspectivas em seu desenvolvimento. A igreja cristã deparou-se com os valores da cultura greco-romana e teve que exercitar as suas convicções naquela cultura. É tarefa nossa conciliar os princípios divinos, eternos e perfeitos, com os valores que nos são impostos, nem sempre de acordo com os de Deus, temporários e imperfeitos. De modo que na sociedade moderna o cristão vê-se obrigado a assumir posturas que sejam inteligíveis e coerentes com os princípios de Deus. É a esta postura em relação a nós mesmos e ao mundo em que vivemos que chamamos de Ética Cristã.

O propósito desses estudos fica, pois, definido: mostrar as opções mais adequadas a partir do referencial bíblico para as questões modernas que geram controvérsias ou descaso, tais como: a pobreza, o aborto, o controle de natalidade, a política e outros temas afins. É evidente a exclusão dos aspectos históricos e filosóficos da ética em si, para dar espaço imediato às questões contemporâneas. A opção pelos temas aqui tratados reflete mais o interesse da comunidade de fé onde estou inserido do que os meus próprios interesses. Todavia, é bem possível que tais temas também encontrem espaço entre os evangélicos brasileiros em geral, pois são situações cotidianas.
IV. A BÍBLIA FALA SOBRE ÉTICA?
Sim. O mais antigo código de ética que conhecemos é a listagem dos 10 mandamentos. Ali se encontram as diretrizes que deveriam fundamentar o relacionamento do povo com Deus, o relacionamento de hebreu com hebreu e o relacionamento com os estrangeiros. Esse código de ética é exposto em seu real sentido no NT.
O vocábulo grego ethos é a palavra comum para designar costumes, ritos, procedimentos e maneiras. É de onde deriva a nossa palavra ética. Os seus principais usos no NT são:
a. Costume, hábito (cf. Lc 1,9; 2,42; 22,39; Jo 19,40; At 25,16; 28,17; Heb 10,25)
b. Lei, norma (cf. At 6,14; 15,1; 16,21; 21,21)
Analisemos mais de perto o item b acima, a ética entendida como Lei, Norma. (1) Estêvão é acusado de quebrar a ética vigente, e por isso deveria ser punido: “Este homem não cessa de proferir palavras hostis contra o Lugar santo e contra a Lei; de fato nós o ouvimos dizer que esse Jesus, o Nazoreu, destruiria este lugar e mudaria as normas que Moisés nos transmitiu” (TEB – At 6,14-15); (2) A ética segundo a Lei de Moisés era o padrão requerido pelos judaizantes junto aos novos convertidos, razão de conflito com a mensagem de Paulo (At 15,1; 21,21); (3) Não apenas os judeus se sentiam ameaçados com a pregação da nova ética cristã. Os romanos assim também argumentavam: “Esses homens lançam a perturbação em nossa cidade: são judeus e preconizam normas de comportamento que não é permitido a nós, romanos, nem admitir nem seguir” (TEB – At 16,20b-21).
Portanto, o que se configura é que a mensagem neotestamentária estabelece normas comportamentais ideais, mais de acordo com o verdadeiro espírito da Lei de Moisés. A questão que se nos apresenta é como esse novo padrão cristão, que já desde o início provocara polêmica com os judeus e romanos, deve ser exercitado por nós cristão modernos.
1. A NECESSIDADE DE UMA ÉTICA CRISTÃ COMO CARACTERÍSTICA PESSOAL
O caráter cristão só pode ser formado e desenvolvido se tivermos a mente de Cristo (1Cor 2,16). Paulo é enfático ao afirmar que o crente não tem o espírito do mundo, mas o Espírito que vem de Deus (1Cor 6,12).
Há dois vocábulos para a palavra mente: (1) nous, conforme 1Cor 2,16 (cf. também, dentre outros, Lc 24,45; Rm 7,23.25; 11,34; 12,2; Ef 4,23). Trata-se do entendimento, da compreensão. O ensino de Paulo é que tal entendimento humano deve ser na perspectiva de Cristo – e não dos homens! (2) nóema, conforme 2Cor 3,14; 4,4; 10,5; 11,3 e Fil 4,7. Trata-se dos sentidos, das percepções ou intenções que temos. Por exemplo, Paulo afirma que o deus deste século cegou os entendimentos (nóema) dos incrédulos (2Cor 4,4), razão pela qual eles não tinham condições de ver a luz do evangelho da glória de Cristo.
Um texto bem conhecido, mas pouco compreendido, fala exatamente da necessidade de termos uma mente transformada. Transformação implica necessariamente em movimento. Quando Paulo falou “… e não vos conformeis com este mundo, mas transformai-vos pela renovação da vossa mente” (Rm 12,2), o apelo é que a nossa mente, o nosso entendimento, não deve mais ficar nem a mercê do mundo, nem à nossa mercê, mas segundo a mente de Cristo.
APLICANDO: Para desenvolvermos essa “mente” de Cristo é necessário que conheçamos o que Cristo fez, como fez e por que fez. Imagine-se aprendendo um novo idioma: (1) é necessário ouvir, (2) ouvir bem e repetir de forma audível, (3) falar para alguém para testar a clareza daquilo que você aprendeu. De forma análoga, para se ter a mente de Cristo é necessário, (1) ter sensibilidade para sentir como Cristo sentiu, (2) repetir para si mesmo quais são os padrões que Cristo deseja que tenhamos, (3) agir com o próximo de acordo com os padrões aprendidos (passar do teórico para o prático). O Sermão do Monte (Mt 5-7) é um manancial de instruções para o desenvolvimento de posturas éticas segunda a mente de Cristo.
2. A NECESSIDADE DE UMA ÉTICA CRISTÃ NOS RELACIONAMENTOS INTERPESSOAIS
Este tópico se refere à parte prática da ética cristã. Quando nos relacionamos com o próximo, que postura a mente de Cristo exige que tenhamos?
Paulo foi enfático ao afirmar que, nos relacionamentos interpessoais, o cristão não deve pensar a respeito de si mesmo além do que convém (Rm 12,3). Este é o primeiro passo: eu devo me relacionar com o próximo sem que haja em mim qualquer sentimento de superioridade. Assim sendo, a minha sensibilidade de julgamento sobre o que é certo ou errado no próximo estará submissa à consideração sobre a minha própria pessoa.
O segundo passo é que há uma imperiosa necessidade de associarmos opinião pessoal com opinião alheia. Os fortes devem respeitar os fracos (Rm 15,1), com o devido cuidado de não pormos tropeço ou escândalo aos nossos irmãos (Rm 14,13). Ou seja, ainda que o nosso “eu acho” seja aceitável, nem sempre ele convém (1Cor 6,12; 10,23).
APLICANDO. Temos opiniões diferentes sobre muitos temas. Ao contrário do que muitos pensam, essa pluralidade tende a ser mais benéfica do que negativa. Porém, quando há impasse, quem deve prevalecer? A solução proposta por Paulo é simples: seja a paz de Cristo o árbitro em vosso coração (ARA – Col 3,15). Literalmente, o verso afirma a paz de Cristo arbitre em vossos corações. O verbo arbitrar (gr. brabéuo) é raro no NT (somente essa ocorrência). É de onde provém a nossa palavra brabo/bravo. O juiz era encarado como uma pessoa austera, brava. Talvez Paulo estivesse fazendo um jogo de palavras, pois ele reivindica a paz de Cristo – alguns textos trazem a paz de Deus (e não a ira de Deus) como a responsável por dominar os sentimentos. O bravo dá lugar ao pacífico. Muitas das nossas opiniões antagônicas (muito de nossa ética) seriam resolvidas simplesmente pela observação e promoção da paz de Cristo.
3. A NECESSIDADE DE UMA ÉTICA CRISTÃ NOS RELACIONAMENTOS SECULARES
É freqüente nos depararmos com situações sociais onde a consciência cristã (a mente de Cristo) nos inquire se aquilo está correto ou não e, naturalmente, qual deve ser a nossa opinião e atitude diante de situações controversas.
Opinião. Entendemos que o cristão deve coletar o máximo possível de informações a respeito de um tema e passá-las pelo crivo do segredo, da universalidade e da oração (vide acima). Por exemplo, para respondermos sobre “o que você acha sobre o aborto?”, um bom procedimento é conferirmos um conjunto de informações sobre o tema que nos permita uma opinião mais adequada. Há muitos “eu acho” no nosso meio, oriundos de informações precárias sobre o tema em pauta e, especialmente, sem que uma mentalidade cristã os norteie. A opinião pessoal é bem enfatizada por Paulo: “Um faz diferença entre dia e dia, mas outro julga iguais todos os dias. Cada um esteja inteiramente seguro em sua própria mente… assim, pois, cada um de nós dará contas de si mesmo a Deus” (Rm 14,5.12).
Atitude. Uma opinião deve levar a ação. Não importa quão razoável possa ser uma idéia – se ela não implicar em ação torna-se idéia morta, inútil. Observemos dois exemplos: (1) Uma rápida análise no que a imprensa fala, escreve e mostra, nos daria a certeza: é a imprensa quem possui a solução e os mecanismos para um bom governo. Na inquirição de Rubem Amorese, um apanhado das observações do Boris Casoy, uma amostra apenas dos últimos seis meses, seriam suficientes para canonizá-lo. Será que ele é tão bom quanto suas opiniões? (2) O segundo exemplo pode ser visto no âmbito do discurso político partidário. A rigor, não há idéias anti-éticas. Na análise enquanto discurso, as idéias são na verdade um primor de ética. O contra-senso se evidencia é na descontinuidade opinião e atitude.
Pois o que se requer da Igreja não é somente uma apresentação de um manual de ética para os seus membros e para a sociedade. A postura da Igreja deve revelar opinião e atitude. Não é porque o Estado, a TV, as personalidades formadoras de opinião acham algo sobre um tema que os cristãos assim também devam achar. A pregação, o ensino e a atitude da Igreja devem ser reflexos de sua cristounous (mente de Cristo).
4. UM GRANDE DESAFIO ÉTICO: A CULTURA DO POLITICAMENTE CORRETO
“Politicamente correto” é a expressão usada, especialmente a partir dos anos 80, para evidenciar positivamente a postura de uma pessoa ou grupo diante de um fato ou situação anteriormente aceita, mas negativa. Por exemplo, aceitava-se sem maiores constrangimentos que um inflamado pregador cristão taxasse uma seita mediante adjetivos pejorativos. Hoje, pode-se até falar mal, mas convém que o linguajar seja o mais polido possível. Senão, seremos passíveis de processo.
Conquanto o politicamente correto traga efetivos benefícios para as relações interpessoais e mais gerais, há problemas com essa postura quando ela se faz acompanhar de descaracterização evangélica (ou descaracterização cristã). A cultura do politicamente correto chegou à Igreja cristã nas áreas mais sensíveis possível: na doutrina, na ética, na profecia. Interessa-nos, aqui, uma breve abordagem na esfera da ética.
Na ética, o politicamente correto tem ditado as normas. O politicamente correto se encarregou de forjar o aparecimento do crente dúbio. Esse tal possui uma postura diante de Deus e outra postura diante dos homens. São duas pessoas distintas. Uma fala da outra na terceira pessoa. Dois exemplos nos ajudam nessa compreensão: (1) O então ministro Dilson Funaro e o seu plano de inflação zero nos anos 80, começou a confiscar gado que estava sendo escondido, devido o congelamento dos preços. Numa dessas missões de confisco, os fiscais descobriram que o Secretário de Agricultura do Estado de Alagoas era um dos que estavam escondendo gado, vendendo-o no mercado negro. Diante das câmeras de televisão, o secretário foi taxativo: “Não é o secretário quem está escondendo o gado, mas o empresário”! (2) Questionado sobre a sua fé, o Sr. Edson Arantes do Nascimento, mais conhecido como Pelé, também foi taxativo: “o Pelé não tem religião. O Edson tem, mas isso é algo privado”. Ratificamos então: em nosso atual estágio cultural é possível termos duas posturas: uma postura social e outra postura privada. O problema é que essa dubiedade acompanha o convertido à Igreja. Não raro encontramos membros de igrejas com talentos e dons sendo exercidos na comunidade de fé, ao mesmo tempo em que tais pessoas são verdadeiros diabinhos dentro de casa. Observava um amigo que, a fim de agradar a todos, devemos ter quatro posturas: a ética que verdadeiramente temos, a ética que pensamos que temos, a ética que gostaríamos de ter e a ética que os outros pensam que temos. O nosso jogo de cintura diante das intempéries físicas ou espirituais é, de fato, fantástico.
5. PARA DEBATE
Quais são os instrumentos práticos que a Igreja local possui para formar dentre os seus membros a “mente de Cristo”? Aliste abaixo alguns procedimentos:
A respeito de um tema polêmico (aborto, pena de morte, suicídio, homossexualismo, etc) a Igreja pode conviver com opiniões diferentes ou deve-se buscar um consenso? Que bases bíblicas temos para nos definirmos entre a diferença ou o consenso?
Visto que a Bíblia não fala diretamente sobre determinados eventos ou situações que hoje vivenciamos (a engenharia genética, por exemplo), deveria a Igreja deixar que autoridades governamentais e os formadores de opinião legislassem sobre o assunto, no que seguiríamos a norma aceita como correta?
PARA REFLEXÃO
Sobre a prática de se fazer imagens de pessoas queridas ou soberanos, seguidas de veneração ou culto, o escritor fala das conseqüências: “depois, fortificado pelo tempo, esse ímpio costume fica sendo observado como lei”! (Livro de Sabedoria, Bíblia Grega – 14,16)
Sobre fazer acepção de pessoas e de atitudes, o escritor bíblico fala a respeito do procedimento que se requer de um cristão (o grifo é nosso): “…aquele que disse: Não adulterarás também ordenou: Não matarás. Ora, se não adulteras, porém matas, vens a ser transgressor da lei. Falai de tal maneira e de tal maneira procedei como aqueles que hão de ser julgados pela lei da liberdade” (Tg 2,14-15).

 

 

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